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Sweet Nothing

Sweet Nothing

Sab | 31.12.11

Before you leave me - Capítulo I

Não houve quase ninguém a pedir mas ... aqui fica.

“- Colbie, qual é a parte que tu não entendes: tens …

- Dezasseis anos e as hipóteses de seres adoptada são cada vez menores. – Interrompi, imitando o tom de voz que Melissa usava de cada vez que me alertava para o facto de estar a envelhecer e ninguém querer uma adolescente numa das fases mais críticas da vida.

- Colbie deixa o sarcasmo de lado uma vez na vida…

- Melissa – eu já tinha confiança mais que suficiente para deixar o formalismo de lado quando me dirigia à directora do orfanato onde vivia, - eu não quero ir para uma família onde não me vou sentir bem, onde vou ter de fingir a todas as horas. Isso para mim, chega. C-H-E-G-A.

  - Mas tu não tens de fingir ser alguém que não és. Quando é que tu meteste isso na cabeça?

  - Queres mesmo saber? – Melissa, que se encontrava sentada na sua poltrona muito semelhante aquela dos filmes americanos, assentiu. – Comecei a perceber que tinha de ser assim quando: aos sete anos me mandaram para a família Hemelton, na Califórnia. Lembras-te? Logo nos primeiros dias obrigaram-me a trata-los de “pai” e “”mãe” e fui apresentada a toda a família como uma nova aquisição; aos oito anos e meio, aquela mulherzinha horrível com um apelido estranho me levou da instituição e depois me voltou a cá trazer alegando que não servia para o que ela queria. Queres que continue?

 - Colbie, tu nunca te tentaste adaptar a uma família de acolhimento…

- Elas também nunca fizeram um esforço para me compreender… - Melissa, tinha a faca e o queijo na mão, todos os argumentos lhe davam ainda mais credibilidade.

 - ‘Bie – quando me chamava pela alcunha, utilizada apenas quando estávamos só as duas, fazia com que o meu cérebro lhe desse automaticamente o que ela queria, compreensão – a próxima família que vier aqui à procura de uma rapariga mais velha e que me apresente um bom argumento para a adopção, não vou negar, o teu nome vai ser o primeiro da lista.

 - Mas…

- Quer querias, quer não querias. – O seu tom de voz tornou-se mais agudo e depois de uma breve pausa para encher os pulmões de ar, continuou:- O mundo não gira em torno de ti, nunca girou nem há-de girar por isso, o que disse anteriormente é para manter: a próxima família que eu veja que têm a possibilidade de te proporcionar tudo aquilo que não tiveste e podes vir a ter, será a tua família de acolhimento durante três meses. Depois disso, cabe-te a ti escolher se queres ou não ficar com ele.

- Simples: depois desses três meses eu digo que não quero ficar com ele. – Retorqui, olhando-a nos olhos.

 - Depois desses três meses, passas novamente uma semana aqui e todos os dias terás uma hora especifica para te dirigires a mim e me apresentares um argumento para não queres ficar com eles. No primeiro dia, é só um argumento. No segundo, são dois e assim sucessivamente até ao sétimo onde tomarás a tua decisão final. – Dito isto, os seus cotovelos apoiaram-se na mesa de madeira escura e as suas mãos formaram uma concha. O seu olhar azulado encontrou o meu verde.

- Porque é que estás a fazer isto? – Melissa nunca tinha proposto nada que se pareça a ninguém daquele orfanato.

 - Porque está na altura de dares um rumo à tua vida. – Levantei-me, e bati com a porta. “


 Porquê? Porque é que Melissa tinha de tornar a minha vida mais complicada do que aquilo que ela já era. A nossa conversa tinha sido há apenas dois dias e ela, conhecendo-a como conheço, já deveria ter seleccionado uma lista de possíveis candidatos para ocuparem a minha vida e entrarem nela de repente com a finalidade de serem aquilo que nunca tive nem conheci, para serem uma família. As férias de Verão estavam prestes a terminar, em breve iria voltar à escola e a probabilidade de ser adoptada em tempo escolar era mínima. Explicação para isso? Talvez, porque as pessoas deixam de ter tempo para a família, ligam apenas ao trabalho, concentram-se única e exclusivamente naquilo que os mantém ocupado e ao fim do mês lhe dá algum rendimento.

  O dormitório encontrava-se vazio, um final de tarde solarengo, mantinha toda a gente no jardim. Eu preferia estar fechada entre paredes evitando assim “chocar” com Melissa e as suas notícias mas, como era conhecedora de tudo o que se passava na minha vida e de tudo o que se passava no orfanato depressa me encontrou:

 - Colbie precisamos de falar! – A porta abriu-se depois de Melissa proferir aquelas palavras e num piscar de olhos encontrava-se bem perto de mim.

- Diz, Mel! - Foram as únicas palavras que lhe dirigi.

 - Acabaram de sair daqui duas pessoas que pretendem adoptar uma rapariga com mais de treze anos. – Iniciou o seu discurso de forma passiva e vendo que nem o meu olhar recebia, prosseguiu – Contei-lhes a tua história e pareceram-me bastante interessados em ti, interessados não será mesmo a palavra correcta… Pareceram-me preocupados com o rumo que a tua vida poderia seguir, e quando lhes mostrei a tua foto ficaram ainda mais presos em ti. – A sua mão esquerda repoisou sobre os meus braços num jeito carinhoso, incentivador. Não me manifestei, continuei a assimilar cada palavra. – Moram a trinta quilómetros daqui e estão dispostos a passar os três meses contigo. Têm um filho um ano mais velho que tu, e acham que está na altura de alargarem a família. A senhora Rosalie é bastante simpática e apercebi-me que adorava ter a possibilidade de cuidar de uma menina.

- Porque não procuram uma menina mais nova que possam educar do jeito que bem entenderem?! – Perguntei-lhe friamente.

- Porque procuram alguém com uma personalidade formada. Querem alguém com cabeça, e neste momento uma criança pequena não era a melhor opção.

 - E porque é que eu acho que tu não me estás a contar a história toda? – Inquiri desconfiada.

- Porque tens um sexto sentido bastante apurado, é tudo o que te posso dizer. ‘Bie, esta família está determinada em adoptar-te.

- Eles nem me conhecem …

 - Mas querem conhecer, querem mesmo minha querida. – A sua mão desviou a minha franja para o lado com uma suave carícia. – Promete-me que vais tentar ser compreensiva…

 - Eu ainda não aceitei o facto de ir morar com uns desconhecidos durante três meses e estás-me a pedir para ser compreensiva?

- Faz isso por mim, Colbie. O que é que te custa? Sabes perfeitamente que daqui a uns meses, se não fores adoptada, vão retirar-te desta instituição. É isso que queres? Explica-me, é isso que queres para ti?

 - Não, - admiti, cabisbaixa- não é.

 - Então, por favor, uma vez na vida deixa essa tua teimosia de lado e pensa bem sobre o assunto. Tens aqui tudo o que precisas de saber sobre a tua família de acolhimento. – Melissa ergueu o seu corpo de um metro e setenta e entregou-me um dossier castanho. – Vê-o com atenção, analisa e reflecte bem sobre o teu futuro. Pensa no número de pessoas que queriam estar no teu lugar, olha que não são assim tão poucas.

Depois de Melissa sair, abri o dossier que me tinha trazido. Ali, naqueles documentos, estavam todas as informações que eu precisava de saber sobre a minha “nova família”, uma foto de Rosalie e Charles e um bilhete, escrito a caneta muito fina e com uma letra redonda:

“Colbie, pode parecer estranho e deves ter bastantes preguntas na tua cabeça… Nós gostávamos imenso que fizesses parte de nós, da nossa casa, das nossas conversas … da nossa família. Vem passar os três meses connosco. Nunca ninguém perdeu nada em tentar. Rosalie e Charles” As minhas mãos apoderaram-se da fotografia onde se podia ver Rosalie e Charles.

Nada sobre o filho de dezassete anos que me tinha mencionado Mel. Porquê?

Depois de reler os documentos, encontrei o nome do rapaz: Zayn. Qual o motivo de não possuir nenhuma fotografia nos documentos? Qual a razão para Zayn não ter vindo com Rosalie e Charles ao orfanato?

Será que sabia algo sobre a questão da adopção?

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